20070708

Os Rios Atónitos

( ouvindo "Kongo", por Miriam Makeba)

Há palavras a dormir sobre o seu largo assombro

Por exemplo, se dizes Quanza ou dizes Congo

é como se houvesse pronunciado os próprios rios


Ou seja, as águas

pesadas de lama, os peixes todos e os

perigos

inumeráveis

O musgo das margens, o escuro

mistério em movimento.


Dizes Quanza ou dizes Congo e um rio corre Lento

em tua boca.


Dizes Quanza

e o ar se preenche de perfumes perplexos.


E dizes Congo

e onde o dizes há grandes aves

e súbitos sons redondos e convexos.


E dizes Quanza, ou dizes Congo

e sempre que o dizes acorda em torno

um turbilhão de águas:

a vida, em seu inteiro e infinito assombro.



José Eduardo Agualusa, Palavra de Poeta- Antologia

Imagem (C) cena de um documentário produzido por Thierry Michel

4 comentários:

Méon disse...

O eco de África nesses nomes tão sonoros dos grandes rios...

avelaneiraflorida disse...

Um poeta que também ele é um rio...

papagueno disse...

Lindo poema do Agualusa, a lembrar terras onde eu estive ainda bebé e de onde trago recordações muito vagas.
Beijinhos

avelaneiraflorida disse...

Terras que eu adorava conhecer...