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20080126

Reúno...


Reúno coisas comovidamente;

Da mãe, o xaile azul, do namorado

Um beijo no Relvão, da avó demente,

O anjo que cantava no telhado;


Da ilha, a hora lassa que ao poente

Rendia o mar a um sono nacarado,

De febris coisas, já no Continente,

Num clarão de ametistas, o amado,


Dos meus passos da cruz, as cicatrizes;

Da minha estrela errante outros países;

Do breve encontro, um rosto que se esfuma...


Coisas que em busca da sua ligação

Reúno. Absurda sensação

De as juntar e não ter coisa nenhuma.


Natália Correia,
Sonetos Românticos
Imagem © OCTAVIAN FLORESCU - 1990

20071220

neste tempo...


Nada a fazer, amor, eu sou do bando

Impermanente das aves friorentas;

E nos galhos dos anos desbotando

Já as folhas me ofuscam macilentas;


E vou com as andorinhas.Até quando?

À vida breve não perguntes: cruentas

Rugas me humilham.Não mais em estilo brando

Ave estroina serei em mãos sedentas.


Pensa-me eterna que o eterno gera

Quem na amada o conjura. Além, mais alto,

Em ileso beiral, aí me espera:


Andorinha indemne ao sobressalto

Do tempo, núncia de perene primavera.

Confia. Eu sou romântica.Não falto.

Natália Correia

20070914

SIGTUNA

galaxism© Sharon Webb, 1997-2001

sculptusm © Sharon Webb, 1997-2001

Silente única e rúnica

é esta a capital

dos grandes transparentes

que voltam do cristal



porque é aqui que os silfos

em procissão boreal

para os meses de frio

trazem um castiçal



porque é aqui que um cisne

intangível e vago

abre a rota dos sonhos

no sal-gema do lago



porque é aqui que o céu

tem como radical

os abetos que estão

em sua pastoral



porque é aqui que o poeta

ouve a infrangível trova

que debaixo da neve


canta a que morreu jovem



e aqui fazem os séculos


pausadas esculturas

com o sono que escorre


das estrelas maduras


Natália Correia

in Poemas a Rebate

20070722

Cidadania


Buquê de ruídos úteis

o dia. O tom mais púrpura

do avião sobressai

locomovida rosa pública.


Entre os edifícios a acácia

de antigamente ainda ousa

trazer ao cimo a folhagem

sua dor de apertada coisa.


Um solo de saxofone excresce

mensagem que a morte adia

aflito pássaro que enrouquece

a garganta da telefonia.


Em cada bolso do cimento

uma lenta aranha de gás

manipula o dividendo

de um suicídio lilás.


Natália Correia


in POEZZ Jazz na Poesia de Língua Portuguesa
Selecção e Textos de José Duarte e Ricardo António Alves,
Edição Almedina, Coimbra, 2004
Imagem (C)mainstayrockhall.org

20070705

Nuvens correndo num rio




Nuvens correndo num rio
Quem sabe onde vão parar?
Fantasma do meu navio
Não corras, vai devagar!


Vais por caminhos de bruma
Que são caminhos de olvido.
Não queiras, ó meu navio,
Ser um navio perdido.


Sonhos içados ao vento
Querem estrelas varejar!
Velas do meu pensamento
Aonde me quereis levar?


Não corras, ó meu navio
Navega mais devagar,
Que nuvens correndo em rio,
Quem sabe onde vão parar?

Que este destino em que venho
É uma troça tão triste;
Um navio que não tenho
Num rio que não existe.


Natália Correia
Imagem photobucket.com