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20071019

A LER...

[...] não era um bébé bonito. Nem sequer tinha cor de bébé. Tinha uns ombros largos e um aspecto atarracado, como se tivesse estado agachado no ventre materno. A testa inclinava-se desde as sobrancelhas ao cimo da cabeça. O cabelo crescera-lhe de uma forma invulgar na parte média da nuca, onde formava uma cunha ou um triângulo que terminava ralo na testa, numa madeixa crespa e amarelada, enquanto dos lados e na parte postrior estava espetado para baixo. As mãos eram gordas e fortes e tinha as palmas musculosas. Abriu os olhos e olhou de frente para a mãe. Tinha uns olhos verde-amarelados que focavam, que pareciam manchas de sabão. Ela esperara uma troca de olhar com a criatura que, tivera a certeza, a tentara magoar, mas não havia ali qualquer reconhecimento. E o coração contraiu-se com pena dele; pobre criaturinha, a mãe a sentir tanta aversão por ele...Mas ouviu-se dizer enervada, embora tentasse rir.
- Ele é parecido com um anão, um gnomo, ou qualquer outra coisa.
E abraçou-o, para o compensar. Mas ele era rijo e pesado.
[...]

Um excerto de uma das obras extraordinárias
de DORIS LESSING