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20071101

Fins de Outono




A tiritar de frio, em seu balcão,

Tosse o Príncipe louro, e as nuvens olha;

Sua cr'oa de nardos de desfolha,

pelos canais, cantando os cisnes vão...


Não ha pavões: só penas de pavão!

Treme o lago, ao cair de cada folha...

E dos repuxos a poeira molha

O moço, quando passa a viração...



Cerra os olhos o Príncipe, cansado

De ver nas foscas nuvens, batalhando,

Plúmbeas quimeras, em revoltas iras...



E, no mosaico do balcão dourado,

Dos seus dedos exangues, vão tombando

Os anéis cravejados de safiras...


Eugénio de Castro.
Depois da Ceifa
Imagem Lourdes Vannier1 (C) Crepúsculo 1997

20070728

Epígrafe


Murmúrio de água na clépsidra gotejante,

Lentas gotas de som no relógio da torre,

Fio de areia na ampulheta vigilante.

Leve sombra azulando a pedra do quadrante.

Assim se escoa a hora, assim se vive e morre...


Homem, que fazes tu? Para quê tanta lida,

Tão doidas ambições, tanto ódio e tanta ameaça?

Procuremos somente a Beleza, que a vida

É um punhado infantil de areia ressequida,

Um som de água ou de bronze e uma sombra que passa.


Eugénio de Castro,

in Antologia Pessoal da Poesia Portuguesa,

Eugénio de Andrade
Imagem (C) Picasso