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20070228

Seta Poética...

Na entrada da Biblioteca-Museu República e Resistência,
na parede,
há uma caixa de papel com uma seta

que nos dá uma ordem: TIRE UM POEMA.

Como sou bem mandada, tirei.

A sorte bafejou-me com este:


Alegria da Criação
Plantei a semente da palavra
Antes da cheia matar meu gado
Ensinei ao meu filho a lavra e a colheita
num terreno ao lado
a palavra rompeu
Cresceu como a baleia
no silêncio da noite à lua cheia
Vi mudar estações
Soprar a ventania
Brilhar de novo o sol
sobre a baía
Fui um bom engenheiro
Um bom castor
Amei a minha amada
Com amor
De nada me arrependo
Só a vida
me ensinou a cantar
esta cantiga
JOSÉ AFONSO

20070224

Mulher da Erva

Velha da terra morena
Pensa que é já lua cheia
Vela que a onda condena
Feita em pedaços na areia
Saia rota subindo a estrada
Inda a noite rompendo vem
A mulher pega na braçada
De erva fresca supremo bem

Canta a rola numa ramada
Pela estrada vai a mulher
Meu senhor nesta caminhada
Nem m'alembra do amanhecer

Há quem viva sem dar por nada
Há quem morra sem tal saber
Velha ardida velha queimada
Vende a fruta se queres comer

À noitinha a mulher alcança
Quem lhe compra do seu manjar
Para dar à cabrinha mansa
Erva fresca da cor do mar

Na calçada uma mancha negra
Cobriu tudo e ali ficou
Anda, velha da saia preta
Flor que ao vento no chão tombou

No Inverno terás fartura
Da erva supremo bem
Canta rola tua amargura
Manhã moça... nunca mais vem



Letra e Música: Zeca Afonso


















Zeca...a voz de um sonho tornado real!!!!