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20080515

Azul...


E se, de repente,
voassem dos teus olhos
duas pombas azuis?


Então sim, poeta,
cairia pela primeira vez no mundo
o espanto da primavera completa.


José Gomes Ferreira
in Poesia III
Imagem (C) Google Images

20070823

IV


Luar azul

que levanta do chão

as paisagens do mundo.

E sustém no ar

bosques de vento,

flores de frio,

pedras com asas,

caminhos de estrelas...

...e este sussurro dos bichos

pousados nas nuvens a cantar

o espanto do sol ser azul no luar...



Luar de insónia

esborrachado no chão

com um sapo a cantar no coração.


José Gomes Ferreira,
in Província, Poesia - III

20070822

XXXIX


De repente, lembrei-me do mistério das flores amarelas

que prolongam a planície até às madrugadas do murmúrio...


Afinal, quem criou as flores amarelas?


Foi talvez o Primeiro Peixe que se arrastou no chão com um raio de sol na boca...

Talvez o rojo das crinas de oiro dos cavalos caídos do arco-íris...

Talvez o vento que pintou a terra dum sopro de borboletas presas...


Não sei.


[...]

José Gomes Ferreira,

in Eléctrico, Poesia -III

20070817

XXXIX


Entrei no Café com um rio na algibeira

e pu-lo no chão,

a vê-lo correr

da imaginação...


A seguir, tirei do bolso do colete

nuvens e estrelas

e estendi um tapete

de flores

- a concebê-las.


Depois, encostado à mesa

tirei da boca um pássaro a cantar

e enfeitei com ele a Natureza

das árvores em torno

a cheirarem ao luar

que eu imagino.


E agora aqui estou a ouvir

a melodia sem contorno

deste acaso de existir

- onde só procuro a Beleza

para me iludir

dum destino.


José Gomes Ferreira,
in Café, Poesia III
Imagem(C) Sergei Chepik

20070815

XXV


Dantes deixavas-te sonhar

para ser melodia...

E era o próprio Ar

que te concebia.


Nas noites sem luar

ao céu te prendia

- cabelo a roçar

pela penedia...


Agora és real.

Soas a metal

nos olhos castanhos.


Pastora da Solidão

com lobos no coração

a devorar os rebanhos.


José Gomes Ferreira,
in Eléctrico, Poesia III
Imagem (C) Kristi Ottem Langeland

VI





Sei lá se há estrelas!

Daqui não as vejo.

Qualquer dia hei-de ir vê-las

ao rio Tejo.


Não no céu tão longe e incerto

onde a custo as descobrimos,

mas a brilharem mais perto

nas águas de treva e limos.


Só assim desse modo

consigo entendê-las.

Caídas no lodo

é que são estrelas.


José Gomes Ferreira,

in CAFÉ Poesia III

Imagem(C) Alessandro Beltrano