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20080102

Novos dizeres...


Está de pé sobre as brancas dunas. As ondas conduziram-na

e os ventos empurraram-na. Está ali, na perfeição redonda

da oferenda.E como que adormece no esplendor sereno.

Diz luz porque diz agora e és tu e sou eu, num círculo

só. Está embriagada de ar como uma forte lâmpada.


É uma área de equilibrio, de movimentos flexíveis,

um repouso incendiado, a vitória de uma pedra.

Abrem-se fundas águas e um novo fogo aparece.

Que lentas são as folhas largas e as areias!

Que denso é este corpo, esta lua de argila!


Nua como uma pedra ardente, mais do que uma promessa

fulgurante, a amorosa presença de uma mulher feliz.

Nela dormem os pássaros, dormem os nomes puros.

Agora crepita a noite, as línguas que circulam.

Crescem,crescem os músculos da mais íntima distância.


António Ramos Rosa
Imagem obtida em Google Images

20070704

Ausência iluminada


Queremos viver

na frescura da folhagem

iluminados

por uma arma de água viva.

E as palavras serão antigas

serão novas

como presenças redondas

na lucidez das horas

Que nas mais suaves sílabas

se possa diluir

toda a violência

e só os frutos reinem

e os rios acendam

os meandros

de uma terra lavrada

pela respiração

da ausência.

in A. Ramos Rosa, O Não e o Sim

20070622

Voz silenciosa




O que é ser uma figura do silêncio?


O que é ser apenas o hálito de uma folha?


Alguém me descobrirá no meu círculo minúsculo?


Quem falará às pedras? Quem dirá a palavra?


Inclino-me sobre a água com um suave desejo


e quase canto no silêncio, adormecendo.


Amo a luz tranquila e o meu pequeno corpo


leve como uma clara chama.O mistério é meu.


Mas se alguém vier acariciar as pedras


eu cantarei na sua boca, descerei ao fundo


da garganta e serei nas suas veias


o frémito feliz de uma pedra harmoniosa.




António Ramos Rosa, O Não e o Sim

Imagem (C) Açores, Ilha Terceira