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20070723

POEMACTO (excerto)


Sou uma devastação inteligente

Com malmequeres fabulosos.

Ouro por cima.

A madrugada ou a noite triste tocadas

em trompete. Sou

alguma coisa audível, sensível.

Um movimento.

Cadeira congeminando-se na bacia,

feita o sentar-se.

Ou flores bebendo a jarra.

O silêncio estrutural das flores.

E a mesa por baixo.

A sonhar.


Herberto Helder,

in POEZZ
Imagem (C) Dave Mackean 1996

20070722

Cidadania


Buquê de ruídos úteis

o dia. O tom mais púrpura

do avião sobressai

locomovida rosa pública.


Entre os edifícios a acácia

de antigamente ainda ousa

trazer ao cimo a folhagem

sua dor de apertada coisa.


Um solo de saxofone excresce

mensagem que a morte adia

aflito pássaro que enrouquece

a garganta da telefonia.


Em cada bolso do cimento

uma lenta aranha de gás

manipula o dividendo

de um suicídio lilás.


Natália Correia


in POEZZ Jazz na Poesia de Língua Portuguesa
Selecção e Textos de José Duarte e Ricardo António Alves,
Edição Almedina, Coimbra, 2004
Imagem (C)mainstayrockhall.org