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20080519

Recomeço


Recomeço a partir de muito pouco,

nesta margem onde a areia, húmida e

sombria, erguida do sono,

se esvai por entre os meus dedos perdidos.

[...]


José Agostinho Baptista
in Anjos Caídos
Imagem (C) Irene Sheri

20080318

Parece que...


Parece que se dobra.

Tocada pelo sopro da tua ausência parece

que se dobra

como uma haste no cimo das colinas.

E depois senta-se, e sonha, e é como se

esperasse por ti,

pelas tuas altas flores no cimo das colinas.


[...]


José Agostinho Baptista
in Biografia
Imagem(C) William Barnes, 2007

20080220

Lugar...


[...]

Desconheço a constelação onde estás.


Estás à esquerda,
junto ao cenário azul, sem nuvens.
Ardem fogueiras de incenso e sândalo, além.
Rodeiam-te infinitas lâmpadas suaves,
com filamentos de ouro.mercúrio e cristais.
Há um violino, apenas um,
que o músico cego toca, num teatro de pó,
de onde não se vê o mar.
É uma música alta, como se chamasse por ti.

José Agostinho Baptista
in Quatro Luas
Imagem(C) Maria Desmée

20070816

Busca


Durante os anos os procurei,

um amor, um lugar,

um sonho de casas eternas,

um cais de outrora quando se acendiam as lâmpadas,

durante anos te procurei,

caminhante das estrelas solitárias, das

estrelas sem nome,

brilhando sobre as ilhas, sabe-se lá onde,

em que oceanos que levaste contigo,

no grande eclipse desta vida.


José Agostinho Baptista,

de Agora e na Hora da Nossa Morte(1998),

in Biografia (2000)


20070705

nestas horas...


[...]


Desço os degraus da casa e da terra.

Fecho os olhos.

E por dentro da sua cor,

por dentro da sua luz verde,

esses olhos partem para o mar,

quando o crepúsculo cai do outro lado dos espelhos



[...]

José Agostinho Baptista, Esta Voz É Quase o Vento