
[...]
Tiro o meu escudo da sela e meto o braço na braçadeira; depois desembainho a espada e volto-me para a ponte. Sir Wolf já desmontou e está à minha espera. Está um bonito dia de Outono e as árvores esticam os seus ramos nus para aproveitar o sol derradeiro.É curioso, tenho a sensação de que o mundo parou e de que posso apreciar tudo ao mesmo tempo com uma minúcia extraordinária. As copas despidas das árvores, as sombras alongadas da tarde, o melro de bico vermelho que espreita a cena pousado no parapeito, as águas frias e revoltas do rio, os peixes que cintilam entre as espuma, a Dama que franze a boquinha para cuspir um caroço da sua refeição, o inquieto bater de patas do meu cavalo, o assobio lento e cauteloso da armadura bem oleada do meu rival.
Subitamente a voragem [...]
Rosa Montero
in História do Rei Transparente

