20070414

PALAVRAS DE ABRIL III


UM HOMEM NA CIDADE


Agarro a madrugada

como se fosse uma criança

uma roseira entrelaçada

uma videira de esperança

tal qual o corpo da cidade

que manhã cedo ensaia a dança

de quem por força de vontade

de trabalhar nunca se cansa


Vou pela rua

desta lua

que no meu Tejo acende o cio

vou por Lisboa maré nua

que deságua no Rossio.


Eu sou um homem na cidade

que manhã cedo acorda e canta

e por amar a liberdade

com a cidade se levanta


Vou pela estrada

deslumbrada

da lua cheia de Lisboa

até que a lua apaixonada

creça na vela da canoa


Sou a gaivota

que derrota

todo o mau tempo no mar alto

eu sou o homem que transporta

a maré povo em sobressalto


E quando agarro a madrugada

colho a manhã como uma flor

à beira mágoa desfolhada

um malmequer azul na cor.


O malmequer da liberdade

que bem me quer como ninguém

o malmequer desta cidade

que me quer bem que me quer bem!


Nas minhas mãos a madrugada

abriu a flor de Abril também

a flor sem medo perfumada

com o aroma que o mar tem

flor de Lisboa bem amada

que mal me quis que me quer bem!


Ary dos Santos

2 comentários:

Nómada disse...

É de justiça que a poesia de Ary dos Santos seja recordada! Pela sua força, a sua garra, a veemência do seu dizer.
Li e reli. Em certa altura até me parecia ouvir a voz do poeta, pedrada atirada ao charco deste país rocócó...

avelaneiraflorida disse...

Infelizmente este país vai gastando as palavras com outras coisas de menor importância...

Um dia destes acordamos...e as palavras foram todas amordaçadas!!!