20071211

The Lady of Shalott

Na madrugada...


Foi aquela tarde um tição

e depois foi violeta

todo o ar. Brancas luzes

cintilaram no céu.

E eu escuro.

Longa noite.

E ao chegar a madrugada

do corpo nasceu a sombra.


Francisco Brines,
A Última Costa
(tradução e introdução de José Bento)
Imagem(C) Jeffrey Jones

20071210

Recuerdos de la Alhambra

Cartas de Outono...


Enquanto dormes constrói-me um rosto de luz, no limbo do teu sonho. Toca-o e acorda-me.

Caminha comigo, peço-te, na inquietação daquele rosto, e nesta alegria suspensa na solidão.


[...]


Al Berto,
Dispersos
Imagem (C) Tamara Lempicka

20071209

Mona Lisa

by Nat King Cole

DISPERSO,O AMOR RECORDA...


Fresco vergel que o vento

da madrugada enflora:


As mãos são como foices

que vão ceifando a aurora.


Disperso, o amor recorda

a vida toda.


Raul de Carvalho
in POESIA


Imagem(C) Jeffrey Jones

20071208

O Outono


O Outono é uma boa estação para gozar o sossego e a paz.

Para todos há trabalho que baste e os dias ainda contam muitas horas de sol.

Os gamos malhados, nascidos da corça, acham abrigo nas moitas vermelhas dos fetos do bosque. Ao soarem os guizos do rebanho de corças, os veados machos correm dos outeiros.

Nos bosques espessos é grande a fartura de doces bolotas.Por toda a lonjura da terra castanha se alongam searas de aveia e cevada.

No pátio em ruínas crescem as ervas e moitas espinhosas de bagas silvestres. E pelo chão se espalha fruta de sumo, madura e pesada.

Grandes avelãs, de bom sabor, pendem aos cachos de aveleiras velhas e bem alinhadas.


in A Perfeita Harmonia

- Poemas Celtas da Natureza
( trad. José Domingos Morais)

Imagem (C) www.blessingscornucopia.com/celtscelticancien...

20071207

AUTUMNAL EMOTION

(Appassionata - SECRET GARDEN)

Para que não fiquem dúvidas...

Eu sei que nem sempre é fácil entender, e aceitar, as palavras antigas...

A propósito da Cantiga que aqui deixei...acho que devo ser justa para com os meus Amigos Trovadores!!!!

Sobre o mar...a saudade... uma das Cantigas de Amigo que, talvez, ainda recordem:





Sedia-m[e] eu na ermida de San Simion,

cercaron-mi as ondas, que grandes son:

eu atendend[o] o meu amigo,

eu atendend[o] o meu amigo!



Esta[va eu] na ermida ant[e] o altar,

cercaron-mi as ondas grandes do mar:

eu atendend[o] o meu amigo,

eu atendend[o] o meu amigo!



Cercaron-mi as ondas, que grandes son,

non hei barqueiro, nem [ar son] remador:

eu atendend[o] o meu amigo,

eu atendend[o] o meu amigo!



Cercaron-mi as ondas do alto mar;

non hei [i] barqueiro, nen [ar] sei remar:

eu atendend[o] o meu amigo,

eu atendend[o] o meu amigo!



Non hei barqueiro nen [ar son] remador;

morrerei eu, fermosa, no mar maior:

eu atendend[o] o meu amigo,

eu atendend[0] o meu amigo!



Nen hei [i] barqueiro nen [ar] sei remar;

morrerei eu, fremosa, no alto mar;

eu atendend[o] o meu amigo,

eu atendend[o] o meu amigo!



Mendinho,
(C.B.N.852; C.V. 438)

sedia-me eu - estava eu sentada

atendendo - esperando

ar - também, tão-pouco

son- sou

mar maior - mar alto

Imagem - ilha de S. Simon ria de Vigo (C) Javi

20071206

Merci..Peregrino!

Papa pourquoi tu cries? -Francis Bernier

Cantiga...

Este exemplo de Cantiga de amor foi deixada pelo amigo JR , neste cantinho.


Para que todos possamos recordar a beleza das palavras antigas...



Sempre que eu vejo as ondas

e as altivas falésias ,

logo me vêm ondas

ao peito pela bela ,

Maldito seja o mar

que faz tanto mal !


Nunca vejo eu as ondas

nem as altivas rochas

que me não venham ondas

ao peito pela formosa

Maldito seja o mar

que faz tanto mal!


Sempre que eu vejo as ondas

e as altas ribanceiras

logo me vêm ondas

ao peito pela perfeita.

Maldito seja o mar

que faz tanto mal!





Rui Fernandes,

Grafia actualizada por Natália Correia
in Cantares dos trovadores galego-portugueses,
ed Estampa

Imagem(C) Cole Weston

20071205

Certezas...no dia!!!



A pão sabem as palavras,

quando a brisa do sul nos roça a cara.

Seguro, nas duas mãos,as tuas mãos

e sob o peito (o teu, o meu), alastram ramos

transparentes que sustêm, na casa,

a trave-mestra, como se a raiz

de cada árvore nos amarrasse

as veias ao destino do coração.




Graça Pires
in Cem Poemas Portugueses no Feminino
Imagem (C) Jeffrey Jones