Mostrar mensagens com a etiqueta Poesia Abril Ary dos Santos. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta Poesia Abril Ary dos Santos. Mostrar todas as mensagens

20070415

PALAVRAS DE ABRIL IV


O HOMEM DAS CASTANHAS


Na Praça da Figueira,

ou no jardim da Estrela,

num fogareiro aceso é que ele arde.

Ao canto do Outono, à esquina do Inverno,

o homem das castanhas é eterno.

Não tem eira nem beira, nem guarida,

e apregoa como um desafio.


É um cartucho pardo a sua vida,

e, se não mata a fome, mata o frio.

Um carro que se empurra,

um chapéu esburacado,

no peito uma castanha que não arde.

Tem a chuva nos olhos e tem o ar cansado

o homem que apregoa ao fim da tarde.

Ao pé dum candeeiro acaba o dia,

voz rouca com o travo da pobreza.

Apregoa pedaços de alegria,

e à noite vai dormir com a tristeza.


Quem quer quentes e boas, quentinhas?

A estalarem cinzentas, na brasa.

Quem quer quentes e boas, quentinhas?

Quem compra leva mais calor p'ra casa.


A mágoa que transporta a miséria ambulante,

passeia na cidade o dia inteiro.

É como se empurrasse o Outono diante;

é como se empurrasse o nevoeiro.

Quem sabe a desventura do seu fado?

Quem olha para o homem das castanhas?

Nunca ninguém pensou que ali ao lado

ardem no fogareiro dores tamanhas.


Quem quer quentes e boas, quentinhas?

A estalarem cinzentas, na brasa.

Quem quer quentes e boas, quentinhas?

Quem compra leva mais amor p'ra casa.


Ary dos Santos


Lisboa menina e moça

Nunca Lisboa teve palavras tão bonitas para a cantar...

Cavalo á Solta - Fernando Tordo (Ary dos Santos)

PALAVRAS EM ABRIL...com música

20070414

PALAVRAS DE ABRIL III


UM HOMEM NA CIDADE


Agarro a madrugada

como se fosse uma criança

uma roseira entrelaçada

uma videira de esperança

tal qual o corpo da cidade

que manhã cedo ensaia a dança

de quem por força de vontade

de trabalhar nunca se cansa


Vou pela rua

desta lua

que no meu Tejo acende o cio

vou por Lisboa maré nua

que deságua no Rossio.


Eu sou um homem na cidade

que manhã cedo acorda e canta

e por amar a liberdade

com a cidade se levanta


Vou pela estrada

deslumbrada

da lua cheia de Lisboa

até que a lua apaixonada

creça na vela da canoa


Sou a gaivota

que derrota

todo o mau tempo no mar alto

eu sou o homem que transporta

a maré povo em sobressalto


E quando agarro a madrugada

colho a manhã como uma flor

à beira mágoa desfolhada

um malmequer azul na cor.


O malmequer da liberdade

que bem me quer como ninguém

o malmequer desta cidade

que me quer bem que me quer bem!


Nas minhas mãos a madrugada

abriu a flor de Abril também

a flor sem medo perfumada

com o aroma que o mar tem

flor de Lisboa bem amada

que mal me quis que me quer bem!


Ary dos Santos

PALAVRAS DE ABRIL II


CANTO FRANCISCANO





Por onde passaste tu


que não soubeste passar?


Pela sandália do tempo


pelo cílio do luar


pelo cílio do vento


pelo tímpano do mar?

Por onde passaste tu


que não soubeste passar?





Por onde passaste tu


que me ficaste cá dentro


tenaz do fogo divino


irmão pinho ou aloendro?


Por onde passaste tu


que me ficaste cá dentro?





Pois bem: nos campos da fome


ou nos caminhos do frio


se eu encontrasse o teu nome


lançava-te o desafio:


por onde passaste tu


pétala viva dos cerdos


rei das chagas e dos podres


- por onde passaste tu


não passaram as minhas dores!





Nasci da mãe que não tive


do pai que nunca terei


e aquilo que sobrevive


é o irmão que não sei:


uma espécie de fogueira


de corpo que me deslumbra.


Tudo o mais à minha beira


é uma réstia de sombra.


- Por onde passaste tu


com artelhos de penumbra?





Eis-me. Eis-me incendiado


por não saber perdoar.


Meu irmão passa de lado


- Eu sei como hei-de passar.





Ary dos Santos
Imagem(C) Antonio Saura

PALAVRAS DE ABRIL I


O País


A relíquia que eu trago no meu peito

herdada de uma tia Patrocínio

é o país-paris onde me deito

sem culpa mas também sem raciocinio


O conselheiro Acácio bem me disse

nos tempos em que eu era pequenina:

-" O Padre Amaro é mau. Mas que chatice!

Não pode um padre amar uma menina..."


E o meu primo Basílio brasileiro

que foi o pai das minhas sensações!...

E o Mandarim morrendo a tempo inteiro

num país de rabichos e aldrabões?...


Carlos da Maia meu primeiro amor

primeiro livro meu primeiro beijo.

Os Maias da cidade não dão flor

e as Maias é no campo que eu as vejo.


Ramires d'uma casa ilustre e vasta

pindéricos raminhos da nobreza

a terra portuguesa ainda não basta

para as courelas todas da avareza!


E o conde de Abranhos parlamento?

E a Vera Gouvarinho a baronesa?

Mudam-se os tempos mas não muda o vento

é sempre rococó à portuguesa!


Há cem anos que eu canto esta canção

sem cabeça porém com coração.

Porque o país do Eça de Queiroz

ainda é... o País de todos nós!


Ary dos Santos