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20080705

No teu rosto


No teu rosto

competem mil madrugadas


Nos teus lábios

a raiz do sangue

procura suas pétalas


A tua beleza

é essa luta de sombras

é o sobressalto da luz

num tremor de água

é a boca da paixão

mordendo o meu sossego


Janeiro 1981

Mia Couto
in Raiz de Orvalho e Outros Poemas
Imagem(C)Symphony in Red and Khaki II

20071122

Incompleta reflexão


Viemos de longe de nós

habituámo-nos à nossa ausência

fomos subúrbio do homem

esteira cansada do medo

medo sem exílio nem memória.

Pensámos ser a noite

o lugar do mundo

e ficámos na margem

por onde íamos


Mia Couto
in A Palavra é Lume Aceso
Imagem (C) Arthur Boyd

20071029

Pastor


responde

minha cama

de areia quente:

- quantas vezes conduzi

a águia ao ninho solar?

- quantas vezes me cresci

à respiração dos lentos animais?


tu és o tapete

desfiado pela estiagem

e a cada volta me perguntas

- para quando o adeus?


e eu fico

olhando

o obstinado nenúfar

no sono do lago


vês

como a morte

me ensinou a obediência da espera?


Mia Couto
in Raiz de Orvalho e Outros Poemas


20070704

Azul....


Preciso ser um outro

para ser eu mesmo

Sou grão de rocha

Sou o vento que a desgasta

Sou pólen sem insecto

Sou areia sustentando

o sexo das árvores

Existo onde me desconheço

aguardando pelo meu passado

ansiando a esperança do futuro

No mundo que combato

morro

no mundo por que luto

nasço


Mia Couto, Raiz de Orvalho e outros poemas