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20080508

SEMPRE


[...]

E a voz do mar encheu o céu e a terra

Uma voz que está cheia e que se quebra

E nunca mais acaba.

[...]


Sophia de Mello Breyner Andresen
in Cem Poemas Portugueses no Feminino
Imagem C) Donnalee Dunne
2007,Gallery 25 All Rights Reserved

20080426

na manhã...


Pelas tuas mãos medi o mundo
E na balança pura dos teus ombros
Pesei o ouro do Sol e a palidez da Lua.

Sophia de Mello Breyner Andresen
in No Tempo Dividido
Imagem(C) Edom Mountains

20080421

Deriva XIV


Através do teu coração passou um barco

Que não pára de seguir sem ti o seu caminho



Sophia de Mello Breyner Andresen
in Mar

Imagem (C) Can Gogh Gallery

20080329

Quem me roubou...


Quem me roubou o tempo que era um

Quem me roubou o tempo que era meu

O tempo todo inteiro que sorria

Onde o meu Eu foi mais limpo e verdadeiro

E onde por si mesmo o poema se escrevia


Sophia de Mello Breyner Andresen
in Cem Poemas de Sophia
Imagem (C) Kristina Abraham

20080321

EM TODOS OS JARDINS


Em todos os jardins hei-de florir,

Em todos beberei a lua cheia,

Quando enfim no meu fim possuir

Todas as praias onde o mar ondeia.


Um dia serei eu o mar e a areia,

A tudo quanto existe me hei-de unir,

E o meu sangue arrasta em cada dia

Esse abraço que um dia se há-de abrir.


Então receberei no meu desejo

Todo o fogo que habita na floresta

Conhecido por mim como num beijo.


Então serei o ritmo das paisagens,

A secreta abundância dessa festa

Que eu via prometida nas imagens.


Sopfhia de Mello Breyner Andresen
in Mar, Antologia
Imagem (C) Na Winn

20080227

As Rosas


Quando à noite desfolho e trinco as rosas

É como se prendesse entre os meus dentes

Todo o luar das noites transparentes,

Todo o fulgor das tardes luminosas,

O vento bailador das Primaveras,

A doçura amarga dos poentes,

E a exaltação de todas as esperas.



Sophia de Mello Breyner Andresen
in Dia do Mar
Imagem(C) Vladimir Kush

20080219

Palavras Certas


As ondas desenrolam os teus braços

E brancas tombam de bruços.



Sophia de Mello Breyner Andresen,
"Praia"
Imagem (C) Vladimir Kush

20080129

As Fontes


Um dia quebrarei todas as pontes

Que ligam o meu ser, vivo e total,

À agitação do mundo do irreal,

E calma subirei até às fontes.


Irei até às fontes onde mora

A plenitude, o límpido esplendor

Que me foi prometido em cada hora,

E na face incompleta do amor.


Irei beber a luz e o amanhecer,

Irei beber a voz dessa promessa

Que às vezes como um voo me atravessa,

E nela cumprirei todo o meu ser.


Sophia de Mello Breyner Andresen,
Poesia I
Imagem retirada de Google Images

20080123

Para atravessar contigo o deserto do mundo


Para atravessar contigo o deserto do mundo

Para enfrentarmos juntos o terror da morte

Para ver a verdade, para perder o medo

Ao lado dos teus passos caminhei


Por ti deixei meu reino meu segredo

Minha rápida noite meu silêncio

Minha pérola redonda e seu oriente

Meu espelho minha vida minha imagem

E abandonei os jardins do paraíso


Cá fora à luz sem véu do dia duro

Sem os espelhos vi que estava nua

E ao descampado se chamava tempo


Por isso com teus gestos me vestiste

E aprendi a viver em pleno vento.


Sophia de Mello Breyner Andresen,
Livro Sexto
Imagem (C) Laura EYHERAMONHO

20071221

A voz... longe...


[...]

E a voz do mar encheu o céu e a terra

Uma voz que está cheia e que se quebra

E nunca mais acaba.

[...]





Sophia de Mello Breyner Andresen

in Mar, Antologia

20071127

INTERVALO II


Dai-me um dia branco, um mar de beladona.

Um movimento

Inteiro, unido, adormecido

Como um só momento.


Eu quero caminhar como quem dorme

Entre países sem nome que flutuam.


Imagens tão mudas

Que ao olhá-las me pareça

Que fechei os olhos.


Um dia em que se possa não saber.


Sophia de Mello Breyner Andresen
in Cem Poemas de Sophia
Imagem (C) Ben Goossens

20071018

Cá fora



Abre a porta e caminha

Cá fora

Na nitidez salina do real


Sophia de Mello Breyner Andresen
Musa,1994
Imagem (C)Maureen Cavanaugh

20070926

E estamos em outra manhã...


Passavam pelo ar aves repentinas,

O cheiro da terra era fundo e amargo,

E ao longe as cavalgadas do mar largo

Sacudiam nas areias as suas crinas.


Era o céu azul, o campo verde, a terra escura,

Era a carne das árvores elástica e dura,

Eram as gotas de sangue da resina

E as folhas em que a luz se descombina.


Eram os caminhos num ir lento,

Eram as mãos profundas do vento,

Era o livre e luminoso chamamento

Das asas dos espaços fugitiva.


Eram os pinheirais onde o céu poisa,

Era o peso e era a cor de cada coisa,

A sua quietude, secretamente viva,

E a sua exalação afirmativa.


Era a verdade e a força do mar largo,

Cuja voz, quando se quebra, sobe,

Era o regresso sem fim e a claridade

Das praias onde a direito o vento corre.


Sophia de Mello Breyner Andresen,
Paisagem
Imagem(C) Benoitcolsenet-peintures

20070906

Pelo dia de hoje...


Mar,

Metade da minha alma é feita de maresia.



Sophia de Mello Breyner Andresen, Atlântico

in Mar (Antologia)

20070902

Este dia...de Setembro

Foto enviada por (C) especial repórter



Oblíquo Setembro de equinócio tarde



Que se alonga e depara e vê e mira


Tarde que habita o estar do seu parado


Sol de Sul pelo sal detido




Assim o estar aqui e o haver sido


Quasi a mesma que sou no tão perdido


Morar aberto de um Setembro antigo


Com o mar desse morar em meu ouvido




Pura paixão que não conhece olvido






Sophia de Mello Breyner Andresen,



in Mar (Antologia)



20070901

Manhã


Na manhã recta e branca do terraço

Em vão busquei meu pranto e minha sombra

*

O perfume do orégão habita rente ao muro

Conivente da seda e da serpente

*

No meio-dia da praia o sol dá-me

Pupilas de água mãos de areia pura

*

A luz me liga ao mar como a meu rosto

Nem a linha das águas me divide

*

Mergulho até meu coração de gruta

Rouco de silêncio e roxa treva

*

O promontório sagra a claridade

A luz deserta e limpa me reúne


Sophia de Mello Breyner Andresen
in Mar (Antologia)

20070804

Inicial



O mar azul e branco e as luzidias

Pedras - o arfado espaço

Onde o que está lavado se relava

Para o rito do espanto e do começo

Onde sou a mim mesma devolvida

Em sal espuma e concha regressada

À praia inicial da minha vida.


Sophia de Mello Breyner Andresen, Dual
Imagem( C) ainekenaiglassen

20070722

Presenças ????


Transferir o quadro o muro a brisa

A flor o copo o brilho da madeira

E a fria e virgem limpidez da água

Para o mundo do poema limpo e rigoroso


Preservar de decadência morte e ruína

O instante real de aparição de surpresa

Guardar num mundo claro

O gesto claro da mão tocando a mesa


Sophia de Mello Breyner Andresen, Livro Sexto
Imagem(C) Jennifer Willer

20070712

Paisagem


Passavam pelo ar aves repentinas,

O cheiro da terra era fundo e amargo,

E ao longe as cavalgadas do mar largo

Sacudiam na areia as suas crinas.


Era o céu azul, o campo verde, a terra escura,

Era a carne das árvores elastica e dura,

Eram as gotas de sangue da resina

E as folhas em que a luz se descombina.


Eram os caminhos num ir lento,

Eram as mãos profundas do vento,

Era o livre e luminoso chamamento

Da asa dos espaços fugitiva.


Eram os pinheirais onde o céu poisa,

Era o peso e a cor de cada coisa,

A sua quietude, secretamente viva,

E a sua exalação afirmativa.


Era a verdade e a força do mar largo,

Cuja voz, quando se quebra, sobe,

Era o regresso sem fim e a claridade

Das praias onde a direito o vento corre.


in Antologia Pessoal da Poesia Portuguesa, Eugénio de Andrade

20070624

"Sacode as nuvens..."


Sacode as nuvens que te poisam nos cabelos,

Sacode as aves que te levam o olhar,

Sacode os sonhos mais pesados do que as pedras.



Porque eu cheguei e é tempo de me veres,

Mesmo que os meus gestos te trespassem

De solidão e tu caias em poeira,

Mesmo que a minha voz queime o ar que tu respiras

E os teus olhos nunca mais possam olhar.


Sophia de Mello Breyner Andresen, Cem Poemas de Sophia
Imagem(C) Elisa Robles